Brasil
Mundo
Notícias
Atualidades
Cidades
Dia-Dia
Opinião
Beleza
Cinema
Colunas
Crônicas
Sexologia
Era uma vez
Automobilismo
Off-Road
Outros Esportes
Gastronomia
Imagem Digital
Vitrine

 

Uma semana... Duas perdas

 

Por Christinna Costa, colaboradora do A Hora – ONLINE, artista plástica e designer de interiores pela UFRJ, Escola de Belas Artes, parte do Mestrado na Universidade de Madrid, Bailarina de Flamenco e...adora escrever.
e-mail: christinna.costa@gmail.com

O video é a oração de São Francisco cantada com trechos do filme Irmão Sol ,Irmã Lua"... Não há quem não goste de São Francisco...sua história e vida. Seu desapego à riqueza da familia e total doação em trabalho e amor aos pobres. E isso me lembra , guardando-se as devidas proporções, óbvio, o Gabriel. E me toca pela parte do Tommy, pois amava os animais... daí ser o protetor deles. Como orei pra Ele nestas semanas. Mas Tommy está com Ele.

http://www.youtube.com/watch?v=xcEEZ1Xibfc

 

Quem disse que a vida é fácil? Mas quem disse que não pode ser maravilhosa nossa passagem por ela? Tommy se foi... foi continuar sendo o Tommy que não era mais nestas últimas 3 semanas, mas em uma outra vida. Gabriel, o Gab, se foi também... seu corpo foi encontrado em uma plantação de trigo... mas veja se o Divino iria chamar seu "Anjo Gabriel" se ele não estivesse deitado em um berço tão digno... como digna foi sua vida.

Trigo, alimento tão básico e tão necessário em áreas pobres. Quantos lugares ele deve ter conhecido, onde este alimento deveria ser raro? Quanto trigo ele deve ter comprado para ajudar na refeição de muitas pessoas por onde andou?

Gabriel era um rapaz... ou um menino, como minha amiga Anabela, sua tia, gosta e sempre o chamará... um ser iluminado. Coração tão imenso... generosidade do tamanho do mundo... mundo esse que ele foi, em sua pesquisa para a tese que defenderia na Universidade da Califórnia, viver "in loco". Exatamente neste continente que em pleno século XXI, ainda temos essa dívida do total esquecimento que vem do resto do mundo. Sua jornada, terminaria na África, no Maláui.

Já considerado um grande economista com os seus 28 anos, ele passou em primeiro lugar geral para a Puc-Rio, onde concluiu Economia em Relações Internacionais. Durante a faculdade, ganhou uma bolsa para a Science-Po na França e outra bolsa para a Universidade de Madrid. Voltando ao Brasil, terminou sua monografia sobre reforma agrária e ao término de seu mestrado, também na Puc-Rio, trabalhou na FGV em Políticas Sociais.

Seu doutorado em Economia da Pobreza, seria defendido na Universidade da Califórnia. Mas antes, Gabriel queria vivenciar... entender essa pobreza de lugares tão longes... com tantos conflitos, fora a miséria... e foi para a Ásia, Oriente Médio e África.

Antes que alguém já questione algo tipo... "mas doutorado em pobreza?... isso nós temos aqui e com muito pra contar"... Só que ele já havia, durante a faculdade, estado no Amazonas. Foi a bordo de uma avião do correio aéreo e chegando ao Pico da Neblina, conviveu... morou com as pessoas humildes e paupérrimas dos vilarejos locais.

Do outro lado do mundo, na Ásia, Oriente Médio e África, a mesma coisa. Morava nas casas das pessoas pelas cidades, vilas e aldeias por onde passava e a quase totalidade de seu dinheiro, ia para ajudar essas pessoas que o acolhiam... fosse para comida, remédios como até escola paga até o fim do ano para um menino. Para ele mesmo, se mantinha com pouco mais de 2 dólares por dia.

O que importava para Gabriel, era estar fazendo uma pesquisa onde ele estava completamente inserido na vida de cada família... lugar que conhecesse. Queria apresentar um trabalho à altura das pessoas que o receberam... pessoas que na humildade de suas vidas e na luta pela sobrevivência com suas famílias... jamais seriam esquecidas por ele. Sua tese seria defendida em cima de situações vistas, vividas e sofridas com toda essa gente. Nada feito através de dados obtidos de uma confortável cadeira na frente de um computador.

Ele não queria que este trabalho ficasse no teórico belamente escrito, no estatisticamente correto... no discurso que poderia virar até referência como estudo nas universidades. Ele queria sim, pôr seu trabalho para funcionar na prática... em soluções que com certeza ele já deveria ter várias idéias por onde começar. Isso tudo com seu coração e sentimento estando ali... em cada linha... em cada dia e hora de tudo que viveu neste último ano.

Junia Turra, minha amiga e colunista aqui no site... e para quem pedi ajuda para o Gabriel, já que é repórter e mora na Alemanha... disse: "Este rapaz é o filho que o mundo quer ter. A revolução social não começa, se não for de dentro para fora... cidadania e igualdade se constrói com trabalho e suor. Para ser povo é preciso ser indivíduo, é assim que se tem uma sociedade ideal. Pessoas como Gabriel, buscam e colocam a mão na massa para esta
construção"...

Quando perguntei no inicio do texto por que nossa passagem por esta vida não poderia ser maravilhosa... penso que um dos grandes motivos para isto acontecer, são as pessoas que vamos conhecendo pelo nosso caminho. Pessoas como Gabriel, fazem tudo valer a pena. Fazem com que por mais desesperançados que estejamos... sintamos orgulho de ver esta história de vida... deste olhar sobre a vida que ele tinha.

E há os animais também... bichinhos que cruzarão nossa existência... que farão parte de nossa família e que nos marcarão para sempre.

O meu Tommy foi um guerreiro. Lutou muito, mas ao final, seus olhos me pediam pra ficar em paz e deixá-lo ir em paz e no domingo à noite, ele sem forças, saiu de sua cama e, em uma ação que não conseguia mais fazer, tentou subir no sofá onde eu estava... eu o ajudei e ali ficamos até às 3 e meia da madrugada de domingo pra segunda... e eu conversando com ele disse: "amanhã não lhe darei mais os remédios... é isso que você veio me pedir e veio se despedir, não é? Te entendo... fica tranquilo, você não vai sofrer, porque isto eu não quero"...

Essas criaturas, os animais, são seres perfeitos. Eu me considero uma pessoa melhor depois desta convivência de 15 anos com o Tommy. Afinal, como só tinha tido cães... me perguntava : " Que bicho estranho é esse que só quer meu carinho em determinados momentos?... que quando chega pedindo afago, daqui a pouco já se levanta e vai para seu canto sem se importar se você quer dar mais carinho? "

Com o tempo, comecei a respeitar o Tommy e este seu "ensinamento", passou para o meu convívio com as próprias pessoas. O maior mérito do "respeitar", está em não ter a necessidade de se ter tanto conhecimento pelo outro.

Tommy foi o amigo de todas as horas... filhinho querido e que conversava muito comigo. A alegria ao sair e da certeza que na chegada, ao abrir a porta, lá estaria ele no seu alongamento de sempre, me recebendo com aquelas poses charmosas, típicas dos felinos... os próprios top models do reino animal.

Tommy e Gabriel deixam muita saudade... mas tristeza, nunca... jamais. Seres que vieram a este mundo só para espalhar, afeto, amor, generosidade. Merecem ser lembrados com alegria, com graças por tudo que deixam em nossos corações. Se foram fisicamente, mas o "sempre" é a palavra que define e marca junto com outras, os dois para mim. Sempre saudade... sempre amor... sempre queridos... sempre luz.

Para meus leitores, a foto do Tommy e uma do Gabriel que me comoveu demais quando a vi... ele no Paquistão, cercado por crianças, abraçado a um bezerrinho... e um sorriso lindo, puro e feliz.

Um beijo meu Tommy... um beijo Gabriel. E o reino de Deus está em festa!

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade